O sonho brasileiro: Perspectivas jovens de um Brasil melhor

29 jun

“Uma semente que nunca brotou,
que surpreende a antiga forma de organizar.
E pode ser a engrenagem que faz parar
a continuidade da máquina!”

“A Máquina”, banda Sugar Kane.

Semana passada, mais exatamente segunda feira (20/06),  a @box1824 (empresa de pesquisa especializada no mapeamento  de tendências e consumer insights) divulgou o resultado da sua pesquisa intitulada: Sonho Brasileiro. O projeto buscou mapear qual a visão que jovens na faixa de 18 a 24 anos tem do país. Quais são suas expectativas, como eles se vem inseridos na sociedade brasileira, e de que maneira eles acham que podem contribuir para a nação. Em resumo: Qual o sonho que eles tem para o Brasil?

A pesquisa completa você encontra aqui. Ela evidência uma nova realidade que está se materializando, de um Brasil globalizado e em ascensão. Recheado de dados bem embasados, de visão crítica e ao mesmo tempo otimista, o Sonho Brasileiro nos dá a oportunidade de descobrir um Brasil ainda desconhecido, nos inspirando a lutar por um país melhor. Portanto, LEIAM!

Tenho 22 anos, e ao ler o estudo me identifiquei com a maioria das opiniões dadas pelos jovens pesquisados. Sendo assim, resolvi trabalhar alguns temas (o estudo completo tem 393 páginas, muita informação) destacando certos dados, e dando minha opinião sobre determinados assuntos. O post está divido em 5 tópicos: Educação, consumo, trabalho, coletividade e geração colcha de retalhos.

Vamos começar.

Educação:

“Antigamente, era muito mais forte o latifúndio do conhecimento, de ter e não passar por que virava concorrência. Passou a ser legal dividir o que você sabe pra que o outro cresça.”

“A p2p university é uma proposta de universidade internacional montada em cima da lógica do peer-to-peer, que é a troca de arquivos. A lógica é que você troque conhecimento da mesma forma que você baixa um filme na Internet, onde várias pessoas têm milhões de pedacinhos daquele conhecimento e você forma um todo.”

“Temos hoje uma universidade com cursos tão específicos porque temos uma visão de que a sociedade funciona em partes. Hoje em dia, agente ainda peca com esse funcionamento da sociedade, de ter essa visão mais isolada das coisas.” (Citações tiradas da pesquisa, seus autores não são revelados)

Cada vez mais o conhecimento é coletivo. Atualmente qualquer iniciativa de isolamento e apropriação do conhecimento se mostra absurda diante da nova realidade conectada que vivemos. O futuro da educação é o compartilhamento de informações através de redes colaborativas: 85% dos jovens entrevistados acreditam que a internet contribui para o seu aprendizado.

Também devemos observar a maneira como essas informações são trabalhadas. A transdisciplinaridade ainda passa longe das grades curriculares das escolas e universidades. Numa era onde informação está disponível por meio de busca, deve-se educar para a análise crítica, e não para a “decoreba”. O método de ensino ainda é estreito e distante da realidade vivida pelos jovens: 81%  dos jovens brasileiros concordam que as escolas e universidades deveriam valorizar mais as experiências que trazem da sua vida.

Consumo:

“Eu me pergunto quando vamos parar pra refletir sobre o impacto que essa produção excessiva de coisas gera na sociedade. Não tem mais onde colocar carros, prédios, expandir as comunidades.”

“O uso da moeda, pra que ela serve?Ela foi criada pra facilitar trocas, não pra ser acumulada. É para circular.”

“As ações minimas que agente faz no dia-a-dia, como recusar sacolas plasticas, não consumir descartáveis, buscar alimentação orgânica que elimina a necessidade de utilização de produtos químicos que são fabricados por industrias que poluem muito, essas ações diminuem nossa pegada ecológica. Se cada um fizesse isso as empresas teriam que se ajustar, desenvolver outros tipos de ação.” (Citações tiraras da pesquisa)

Ao serem orientados a escolherem 5 palavras que definissem a sua geração, 34% dos jovens entrevistados (o maior percentual) escolheram a palavra consumista.

Já fazem muitas décadas que o planeta tornou-se consumista. Porém a verdade é que no Brasil a capacidade de consumo chegou um pouco atrasada. Ainda que modestamente, essa é a primeira geração de brasileiros a usufruir de um consumo “de primeiro mundo”. Prova disso: Ao serem perguntados quais seus maiores sonhos individuais, 15% dos jovens entrevistados responderam “a casa própria”, 9% sonham com “dinheiro”, e 3% com “carros/motos/eletrodomésticos”. Quando paramos pra analisar que o maior SONHO de uma pessoa (um jovem, não uma senhora) é um ELETRODOMÉSTICO, você percebe que muito do consumismo de hoje é reflexo da falta de “ontem” na sociedade brasileira.

Ainda assim, o consumo exacerbado e sem controle é um dos grandes problemas da nossa sociedade. Instituições são cada vez mais pressionadas por consumidores inteligentes, causando uma crescente em medidas de sustentabilidade e responsabilidade social. E os jovens estão antenados nesse assunto: 91% acreditam que hoje as pessoas consomem mais do que precisam.

Trabalho:

“Acho que ninguém aqui está a fim de ter dinheiro ligado a sofrimento. Dinheiro é importante, só que a questão é como ganhar, como achar um sentido para ele: ganho esse dinheiro fazendo uma coisa que eu gosto e que faça, no mínimo, sentido.”

“Uma coisa que eu observo nos meus colegas, que une todo mundo, é que todo mundo quer trabalhar, mas todo mundo quer ter uma qualidade de vida. Isso é um pouco diferente dos nossos pais, aquela coisa de segurança por ter um cargo público, trabalhar, trabalhar, trabalhar, ter a sua casa, família e deu.”

“Tenho medo de me vender, de me ver daqui a dez, quinze anos trabalhando num banco, vendendo empréstimo para um idoso que não tem a menor condição de pagar e mudar tudo que eu acredito, tudo que eu pretendia quando comecei estudar economia.” (Citações tiradas da pesquisa)

Pois é,  eu não estudei economia mas compartilho desse medo. Como todo mundo, eu preciso trabalhar e ganhar dinheiro, mas é necessário que esse lucro venha aliado a evolução social. Isso não significa que eu vou sair do meu caminho e sacrificar meus sonhos em prol da sociedade. A questão é mais profunda que isso. Como João Paulo Cavalcanti disse em sua palestra no TEDx São Paulo em 2009:

“Porque a sustentabilidade, a perspectiva de inovação sustentável, não está em fazer algo que eu não sei fazer para melhorar o mundo, mas está em fazer e pensar a sustentabilidade dentro daquilo que eu sei fazer. Eu, plantando árvore, não vou eximir a minha culpa e não vou chegar em novo status e patamar de inovação. Eu preciso entender se eu, por exemplo, eu João Paulo, meu time, as pessoas que trabalham comigo, os meus sócios, somos pesquisadores, é através da informação e da pesquisa que eu posso construir um mundo sustentável.”

Podemos evidenciar esse pensamento aqui: 90% dos entrevistados gostariam de ter uma profissão que ajudasse a sociedade.

Alem de ser visto hoje pelo jovem como dimensão social, o trabalho assume outra característica importantíssima: O de realização pessoal.

Nesse quesito há um conflito entre essa geração e a de seus pais. Na visão dos pesquisados, trabalho não é mais visto como apenas um caminho para a estabilidade e o lucro, o que contrasta com a visão da geração passada. Fazer o que gosta e manter certa qualidade de vida são fatores fundamentais: 24% dos jovens tem como maior sonho individual trabalhar na “profissão dos seus sonhos”. Entre esses, 4% (a maioria) sonham em ser empreendedores, montarem seu próprio negócio. Apenas 1% sonham em ser funcionário público.

Outra estatística interessante que enfatiza o pensamento acima é: 9% dos jovens tem medo de ganhar muito dinheiro e ser infeliz. 

Pensamento que dificilmente passaria pela cabeça da geração anterior. Dinheiro era felicidade. Hoje, ele vai virando conseqüência.

Coletividade:

“Acredito na transformação das pessoas através da coletividade, uma atuação conjunta, das idéias, de compartilhar idéias, ações, nosso talento, nosso conhecimento com os outros. Coisas pequenas podem transformar, acredito na divisão do conhecimento.”

“Briga de direitos autorias, quem tem autoria do que, quem tem direito a qual informação, esse tipo de briga pela difusão da informação mundial, até dentro de softwares, códigos livres e fechados, é uma briga que antes não tinha. Antes você tinha o Copyright que dava conta de tudo e hoje o mundo não é mais assim.”

“Fazer as coisas sozinho a partir da minha casa, possível me parece que é, mas é burro. É carregar o piano sozinho nas costas. Por que que alguém faria isso?” (Citações tiradas das pesquisas)

A descrença no poder representativo é notável nessa geração. Depois de tantos escândalos políticos, corrupção, e de ver seus pais esperando por um messias que não virá, os jovens abraçaram a ideia da coletividade. O pensamento deixa de ser hierárquico. A premissa não é mais esperar que seus representantes resolvam tudo, e sim arregaçar as mangas e fazer sua parte pela comunidade também: 79% afirmam que concordariam em utilizar parte do seu tempo livre para ajudar a sociedade. 74% dos jovens afirmam se sentirem na obrigação de fazer algo pelo coletivo no seu dia-a-dia. 77% concordam que o seu bem estar depende do bem estar da sociedade onde vivem.

Do lado virtual, iniciativas como Creative Commons, Crowdfunding e Open Source são claras demonstrações da força da propriedade coletiva. Ações como: Ficha limpa, Cidade Democrática, Kickstarter (e sua versão brasileira, Catarse), são exemplos de manifestações comunitárias em favor de um mundo mais unido, sem barreiras e heterogêneo.

O que nos leva ao nosso último tópico de discussão.

Geração Colcha de Retalhos:

“Os problemas que estão me afetando são globais, as coisas que eu estou envolvida são temas mundiais. Eu me sinto uma cidadã global.”

“A tecnologia e, fundamentalmente, a internet, as redes, o digital, são a maior ferramenta de transformação social já criada. É uma revolução absoluta e irreversível. É um outro nível de empoderamento das pessoas”

“O bonito da cultura é isso, essa individualidade que gera uma coletividade muito mais ampla. O legal é misturar mesmo o maracatu com os riffs de guitarra. É a mistura que é gostosa no meu ponto de vista” (Citações tiradas da pesquisa)

Multidisciplinaridade. Globalização de ideias. Ontem “éramos” brasileiros, hoje somos algo mais. O que essa pesquisa mostrou é que essa geração tem uma visão maior do que a do próprio umbigo. Isso não significa que não dão valor ao Brasil. Pelo contrario, enxergam seus problemas melhor que nunca e querem resolve-los. Contudo agora sua visão é sistêmica. Vislumbram o todo: 68% gostariam que a cultura local se misturasse a cultura global.

A diversidade cultural é poderosa. O mundo não tem mais espaço para ideologias rígidas e excludentes. A nova geração entende que iniciativas conjuntas ao redor do globo são pequenas sementes que podem mudar o mundo: 86% dos jovens brasileiros concordam que a transformação da sociedade vem da união de diversas causas.

E você, o que acha?Una-se a causa, vamos debater. Deixa sua opinião ai embaixo.

___________________________________________________________________________

Portal da Box1824: http://www.box1824.com.br/

Apresentação de João Paulo Cavalcanti no TEDx São Paulo: http://www.youtube.com/watch?v=XJRTla1BIRk

Mais sobre educação?Leia meu post anterior sobre como ensinar no século 21.

Mais sobre propriedade coletiva?Leia meu post sobre Creative Commons.

Mais sobre a Geração Colcha de Retalhos?Leia o Manifesto da uma geração.

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5 Respostas to “O sonho brasileiro: Perspectivas jovens de um Brasil melhor”

  1. Carla Mayumi Albertuni 29/06/2011 at 23:10 #

    Adorei seu post. Legal ver jovens se identificando com o estudo e se manifestando, refletindo dessa forma.

    • pattolla 30/06/2011 at 11:54 #

      Muito obrigado Carla. Sinceramente se vocês tivessem lançado o estudo antes, todos os meus posts viriam embasados com informações dele, portanto eu que agradeço xD. Não só por isso obviamente mas por todo o trabalho de vocês da Box.

  2. Pedrão 30/06/2011 at 13:58 #

    Nossa geração, chamada de Y, tem que aproveitar esse espaço pra, de fato, usufruir de todas as possibilidades infinitas. Seja um post como esse, seja um flash mob, seja um “curtir” naquele texto de protesto do seu amigo. Enfim, a realidade é essa. Das “profissões do futuro”, analista de mídias sociais estava entre elas na Veja semana passada. Não existem mais fronteiras nem barreiras para o conhecimento. Basta escolher a tag que mais chamou sua atenção, apertar o play, esperar carregar, encurtar o link em 140 e compartilhar.

  3. Andressa Oliveira 06/07/2011 at 15:47 #

    Vi uma palestra da Box1824 no #SMD2011 e fiquei encantada! Parabens pelo Post, vamos tentar tirar de nós mesmos o melhor que podemos ser !

  4. Rodrigo Carvalho Silveira 15/07/2011 at 13:08 #

    Um surpresa positiva na navegação dos meus contatos. Kenan fiquei admirado pela forma e conteúdo do seu post. Parabéns! Desde o seu tcc tenho dado uma atenção especial aos teus escritos. Fico feliz quando vejo pessoas próximas falando de questões ou assuntos que eu havia visto em outros lugares também, dá uma idéia de que estamos caminhando juntos. A box e a pesquisa do “sonho brasileiro” vêm me inspirando à algumas reflexões e vê-las por aqui é um selo de identificação. Sendo assim, me sinto entusiasmado em explorar os demais posts e já adicionei teu blog aos meus favoritos. Forte abraço!

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